A ARQUITETA, Lina Bo Bardi
Lina é uma arquiteta italiana que chega ao Brasil, e ao adotá-lo como pátria, trabalhará em sua arquitetura características locais mais do que qualquer outro profissional brasileiro. Assim, um dos aspectos mais importantes da sua obra é a aguda sensibilidade demonstrada em relação aos lugares em que trabalhava, sabendo valorizar e preservar os elementos relevantes, valorizando-os pela inclusão de componentes modernos. A mesma observação vale para situações de intervenção no meio urbano, rural ou no interior de construções existentes. Já os projetos de restauração, reforma ou reciclagem de edifícios existentes executadas por ela apresentam uma combinação do contemporâneo com o tradicional, sem que nenhuma enverede pelo caminho da arqueologia mumificatória nem ignore os valores da pré-existência.
Basta que se leia algumas das sucintas notas explicativas que acompanham os projetos de Lina Bo Bardi para entender que há sempre uma "idéia forte" influenciando a concepção de cada um, traduzida em imagens poéticas que orientam sua organização formal e funcional como, por exemplo, no Centro Cultural de Belém, criado segundo idéias como "cultura como lazer..., torre-farol..., um só bloco de 300 metros..". A “idéia forte” aparece como um catalisador das interpretações e decisões parciais tomadas a respeito dos aspectos fundamentais de qualquer projeto: o programa, a construção e o lugar. Além disso, esses conceitos sempre aparecem como idéias de ordem ou estruturas formais, ao contrário de muitos casos atuais em que algo alheio à arquitetura é introduzido no processo de projeto com autoridade suficiente para controlá-lo.
Portanto, as "idéias fortes" de Lina sempre se relacionam aos aspectos essenciais do problema em questão. Sua preocupação com o programa é bem conhecido, a ponto de intervir na sua própria definição e execução posterior à obra, como no caso do SESC/ Pompéia. A estrutura é freqüentemente exposta, como no MASP, e explorada plasticamente, o que também acontece com detalhes construtivos como os contrafortes de concreto na Ladeira da Misericórdia e as juntas da torre mais esbelta do SESC Pompéia. O prazer derivado da resolução da estrutura fica claro com a variedade de escadas e rampas não convencionais presente em vários projetos. Outro desdobramento dessa preocupação com a técnica é o estabelecimento de contrastes entre elementos rústicos, geralmente estruturais, mostrados sem disfarces, e outros de execução refinada, como portas, janelas, bancos e mesas (SESC) e escadas (Casa do Benin). A presença marcante da estrutura na construção formal de sua arquitetura, assim como o papel desempenhado pelos materiais e pelos detalhes arquitetônicos, indica que a forma nunca era pensada de modo independente da sua materialização.
Outro aspecto da obra de Lina Bo Bardi que mais interessam nos tempos atuais é sua ousadia e maestria no emprego de uma economia de meios que resulta em efeitos formais/plásticos/espaciais de tremenda força e vigor. Sua arquitetura sempre pode ser descrita por meio de uma ou duas imagens que sintetizam sua composição, o que evidencia a intensidade formal de cada uma das suas obras. O recurso a uma arquitetura baseada na economia de meios parece absolutamente pertinente em um mundo caracterizado pelo caos visual de nossas cidades. Formas simples adquirem uma intensidade formal que lhes permite sobressair nesse caos, e conferem ao edifício uma possibilidade de permanência que edifícios projetados ao sabor de modas e tendências não possuem.
A economia de meios conceituais e físicos na obra de Lina Bo Bardi se expressa muito claramente através da grande dimensão, do uso de formas elementares sem ornamento e do emprego de ema palheta reduzida de materiais. Essa economia de meios tão marcante não implica uma seriedade excessiva nem impede a presença de um certo espírito lúdico na obra de Lina. É suficiente lembrar as passarelas que unem as torres e as janelas irregulares da torre mais volumosa do SESC/Pompéia, e a presença de dutos coloridos concentrados no alto da fachada principal do Pavilhão de Sevilha.
Por fim, para concluir e ao mesmo tempo não conceituar o perfil artístico da arquiteta, lanço mão de duas colocações feitas por Eduardo Pierrotti Rossetti (arquiteto e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura de Universidade Federal da Bahia [PPGAU-FAUFBa) no Vitruvius em texto especial intitulado Tensão moderno/popular em Lina Bo Bardi: nexos de arquitetura, em janeiro de 2003.
A arquitetura de Lina Bo Bardi é surpreendente pela multiplicidade com que se manifesta, se constituindo num procedimento fértil que propõe soluções arrojadas e também incorpora soluções vernaculares, que organiza e participa de movimentos culturais, e assim, estabelece seu código poético. O enfrentamento da tensão moderno/popular se faz premente para pensar o espaço e a materialidade de um projeto moderno que se estrutura a partir da valorização de um fator cultural, mormente não considerado como parte integrante de tal procedimento de criação: a cultura popular, com seus usos e seu saber fazer. A tensão moderno/popular em Lina Bo Bardi se trata de uma diferenciação, de um “fenômeno de ruptura” .
Como um artifício de decompor as forças da tensão, pode-se entender que em Lina Bo Bardi, moderno é a escala das preocupações, o alcance social dos projetos, a relação projeto/cidade, seu espaço contínuo, o uso de tecnologias disponíveis e a preocupação com a transformação dos meios técnicos de produção. Moderna é a qualidade das aspirações para a existência deste projeto, o desejo pleno da participação democrática e de uma vida pública coletiva para seus usuários. Também pode-se entender que em Lina Bo Bardi, popular é o procedimento de relacionar as coisas, os materiais e operacionalizar referências culturais; é uma ação de “fazer fazendo” e de invenção plástica sobre as referências. Popular é a digna vitalidade dos espaços e sua singela materialidade, própria para espaços públicos. Moderno é o modo de Lina Bo Bardi tomar a cultura popular.
O PROJETO, Centro de Lazer Fábrica da Pompéia
O sesc pompéia é formado pela restauração de uma antiga fábrica de latão mais 3 blocos novos. A área desativada da fábrica já estava sendo utilizada pela população como local de lazer quando o SESC resolveu tranformar o lugar em mais uma de suas unidades. Para tal foi feito um concurso e Lina Bo Bardi escolhida para a revitalização.
A arquiteta viu então no projeto a possibilidade de criar o seu sonhado museu da cultura brasileira, sem trófeus ou relíquias históricas, mas que feito pelos mais diferentes usuários, resvalece a cultura de um povo, foi então que diante do nome proposto - Centro Cultural e Desportivo da Pompéia - o considerou pouco apropriado para a idéia de centro de convivência que tinha para o programa, assim, rebatizou-o de Centro de Lazer Fábrica da Pompéia .
O local conta então, com um programa composto por diversas atividades, compreeendendo biblioteca, sala de exposições, grande ambiente de estar,deck, sala de vídeo, restaurante/choperia, café, teatro/cinema, ateliês de cerâmica, gravura, tipografia, desenho, marcenaria, tapeçaria, música, dança, laboratório fotográfico, oficinas de manutenção e administração- na área restaurada e piscina, miniginásio, seis quadras poliesportiva, lanchonete, vestiários, salas de lutas, danças, exame médico e solário- nas duas torres novas. É um complexo de espaços e instalações que conjuga atividades relacionadas às expressões artísticas, às expressões do corpo, à saúde e ao bem-estar social.
As estruturas da antiga fábrica em estilo inglês foram mantidas pela arquiteta não por serem antigas, mas por possuirem uma qualidade técnica e de desenho. Toda a revitalização deixa claro suas intervenções, a expressão construtiva é tomada como guia estético e ético, os acréscimos são discretos, mas significtivos: a água e os seixos rolados no laguinho de forma amebóide (Rio São Francisco- denominado por Lina), o labirinto de paredes da biblioteca e da ofiscina de artes, a lareira denotando lar, etc.. Assim, a arquiteta retira todas as divisões internas e utiliza a estrutura antiga na formulação de uma espaço aberto, integrador, mantêm as paredes em alvenaria descascada, a estrutura do telhado e os chás. (As intervenções que estão sendo feitas hoje na estrutura do detalhado, também se destacam como intervenção por serem em metal de cor vermelha.)
Essa conjução entre o novo e o "velho" faz com que o projeto não adote um contexto, mas dote-o de um, e isso acontece duas vezes. Quando se recupera o significado volumétrico da fábrica ao invés de demoli-la, mantendo a paisagem habitual daquele trecho de bairro, recordando sua origem de periferia fabril, mas transformando seu significado (de espaço introvertido de produção em espaço extrovertido de lazer). A outra dotação é o próprio fato urbano inusitado posto pelo novo edifício das quadras esportivas, sinalizando e qualififcando seu próprio evento. Re-conhecer e surpreender com o que se des-conhece: ao recusar o amorfo da mera construção, a obra se faz arquitetura e cidade.
Quando se penetra na Fábrica da Pompéia sucedem-se os marcos da sua rua corredor interna: o portal, marcando o acesso, identificando, diferenciando exterior e interior; o lago, espera, encontro, informação, galilé, percorrendo o caminho, as fachadas contínuas e variadas, mediadas pelo piso urbano, até chegar a um outro portal que leva aos novos edifícios. Nota-se a unidade e a variedade que a fachada contínua e o gabarito conferem ao ambiente, estruturando a ocupação dos vazios - como no foyer do teatro, com a "fachada de treliça" - sem necessariamente determinar materiais e técnicas. Nota-se a pequena cobertura em certo trecho, ligando os dois lados da rua e atribuindo de maneira sutil mais relevância àquele trecho, indicando o acesso ao restaurante e ao espaço de vivência. Nota-se a desnecessidade de signos gráficos, substituidos pela possibilidade de acesso franco , por variações nos materiais, pela transparência/opacidade revelando ou encobrindo informações.
Escapando para o mundo técnico... no teatro, dentro do galpão mais alterado por acréscimos, foi necessário um reforço da estrutura original de concreto - aliás, em todo o conjunto em perfeito estado de conservação e mantida praticamente como encontrado -, com a justaposição de dois corpos longitudinais em concreto para os balcões e as escadas de acesso. Limitado pela caixa envoltória retangular, o teatro pretende ser arena, conduas platéias voltadas para um palco, idéia um tanto dificultada pela predominância longitudinal, pois arena sugere circularidade, envolvência, esse fato pode causar alguns problemas na apropriação cênica dos espaços internos. O retângulo também não é muito propício à acústica, e a ausência de revestimentos tampouco colabora nesse sentido. Chega-se aí talvez a um limite entre intenção estética e funcionalidade, contrapondo-se à parafernália indispensável a um teatro ou auditório à precisão seca e rude dessa arquitetura, num resultado que ressalta a contradição, sem resolvê-la.
Depois de andar por essa rua interna, chega-se à faixa do deque, uma área não edificável ao longo de pequeno córrego canalizado e coberto. Descobre-se então que se está numa transversal da praia. Numa das extremidades, o edifício das quadras e das circulações verticais serve de baliza ao espaço da Fábrica; seu caráter de forte nos rochedos da praia é reforçado por sua aparência monolítica dada pela caixa estrutural de concreto aparente e pelas pontes/passadiços.
São atrativos as aberturas iregulares- os famosos buracos- dipostas irregularmente num quadrado,as aberturas quadradas dipostas irregularmente, o jogo das passarelas quase simétricas, exceto por uma pequena variação na última de cima: o equilíbrio quase perfeito. A torre de circulação amplia-se na base, a torre da caixa d`água é qual farol: sempre o inusitado e o exaustivamente elaborado, pontuando uma solução que enfatiza a austeridade e a concisão.
Mais uma vez na atmosfera técnica... o edifício duplo das quadras consiste em um prédio com cinco pavimentos em pé-direito duplo, de 40x30m, sem apoios, estrutura das lajes em grelha protendida em duas direções e fechamentos em concreto - uma solução cara, justificada pelas limitações de espaço para as quadras e piscina, resultando numa solução vertical com amplos vãos. O outro prédio, com onze pavimentos, ligado a cada dois com as quadras através de passarelas, abriga as circulações verticais (elevadores, escada caracol metálica interna, escada de segurança externa) e, a cada andar, um uso: vestiários, sala de ginástica ,etc.
Nota-se que os novos edifícios seguem mais a relação "forma segue função" do que os edifícios existentes, os primeiros dificilmente poderiam ser utilizados para outros destinos que não os propostos hoje, enquanto os antigos, já provaram sua flexibilidade com a reciclagem a que foram submetidos. Embora na verdade nunca exista uma relação unívoca entre uso e resultado formal/estrutural, pois há sempre e necessariamente um espaço de arbitrariedade e da escolha.
Saindo então, de uma rua tradicional e chegando a uma arquitetura contemporânea, verifica-se essa coexistência de produtos arquitetônicos de diferentes épocas implicando não mera inclusão, mas confrotação: optou-se por reforçar as diferenças, sem contemplação.
Assim, como a reciclagem da parte existente da Fábrica pode ser comparada a outro trabalho de Lina Bo - a recuperação do Solar do Unhão, em Salvador-, a parte nova poderia ser integrante de uma sequência de projetos de museus realizados pela arquiteta: a sede do Museu de Arte de São paulo, o projeto para o museu na praia, em São Vicente e o Masp.
Porém, na Fábrica da Pompéia, com sua aparente secura formal, não falta nunca elaboração e recriação. A apropriação do detalhe tradicional dos azulejos, na piscina e no refeitório, os cacos coloridos nos pisos do sanitário, os vestiários rosa-dourados para as meninas e azul-prateados para os meninos, a cor e o mosaico fazem referência ao gosto popular. As canaletas de águas pluviais acabadas com seixos rolados (hoje fechadas), o piso de paralalepípedos entremeado de grama, o piso cimentado salpicado de pedrinhas, as texturas aparentes e imperfeitas dos materiais fazem referência ao repertório da arquitetura moderna brasileira, para o qual colaboram tanto a autora como outros nomes famosos. As quadras esportivas coloridas como as estações do ano, um pavimento para cada qual, nasceram de belíssimas aquarelas da autora; os caprichosos buracos e o mobiliário relembram, além da artista, a designer.
A nota dissonante é dada pelos detalhes "brutalistas", como a ausência de anteparos, obviamente problemática num prédio esportivo frequentado por crianças e adolescentes. Alguns dos vãos foram "resolvidos" com uma flor de mandacaru simbólica, cujo caule/espinha-de-peixe é convite à escalada rumo ao vazio.
Assim, Lina Bardi tratou a velha fábrica como um lugar perfeito para receber novas atividades e não apenas restaurou a vitalidade e o significado daqueles velhos galpões, como também os transformou num espaço público dinâmico. O sucesso do projeto está na apropriação popular de suas possibilidades espaciais, incorporadas ao cotidiano dos usuários que usam as quadras poliesportivas, a piscina, vêem as exposições, conversam, etc. A expectativa da arquiteta era criar um projeto vivaz, um espaço multifuncional para ser compartilhado e usado por todos, estimulando uma vitalidade urbana popular. É resultado de várias décadas de trabalho da arquiteta em torno das expressões da cultura popular brasileira. A este respeito é importante destacar que seu conceito de popular – e em geral o que em América Latina se pode chamar arte, música e cultura populares – está tão longe dos populismos fascistas europeus dos anos trinta, como dos aspectos industriais e acomodados da cultura Pop norte-americana.
O SESC Pompéia parte de uma vontade integradora dessas culturas populares, que primeiro tem sido violentamente deslocadas de seus meios rurais originais para a megalópole, para serem depois marginalizadas pela indústria e pelas burocracias culturais. Para isso dispõe de uma série de espaços intensamente significativos. Para começar, Lina Bo Bardi partiu do elemento arquitetônico mais comum nas megalópoles do Terceiro e o Primeiro mundos: as ruínas industriais. Em segundo lugar, transformou simbolicamente estes espaços de sacrifício humano e desolação urbana, em um lugar de jogo, criação e prazer. Formalmente esta transformação tem lugar sob uma série de linguagens arquitetônicas que conjugam ritmos e motivos do expressionismo alemão e do futurismo italiano, com as tradições artesanais de carpintaria e de construção em tijolo à vista, as citações da engenharia industrial e variações em torno do galpão da arquitetura tradicional latino-americana. Sob esta polifonia de linguagens e espaços diferentes se estabelece finalmente um diálogo entre a festa popular e a cultura erudita, entre o museu como lugar da memória e a praça pública, entre a biblioteca e a pista desportiva.
Sendo assim, o projeto de Lina é modelo para a cidade que queremos e merecemos. Do diálogo entre o novo e o velho nasce o espaço da multidão: da criança à terceira idade. A família e a inclusão de todos os seus membros sempre foi uma característica brasileira. A miscigenaçao é seu alimento. As pessoas juntas é mais gostoso. Da convivência, há de produzir uma cultura nossa, mestiça.
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